Antologia da pandemia (2020)

Brasil (RS)
Longa-metragem | 13 episódios | Ficção
cor, 80 min

Direção: Fabrício Bittar, Guillermo Carbonell, Junior Larethian, Martín Blousson, Beatriz Saldanha, Alejo Rébora, Daniel Pires, Julio Cesar Napoli Filho, Emerson Niemchick, Matheus Maltempi, Karl Holt, Giordano Gio, Andreas "splash" Kyriacou.
Companhia produtora: Fantaspoa Produções; Clube Filmes; Murdoc; Larethian Filmes; Auch Films; Garmonbozia; Sarna; Museu do Medo; Lenda; Filmes Caseiros; Niemchicken Films; Suco Excêntrico Filmes; Dark Line Entertainment; Fehorama Filmes; Machina Filmes; Splash Screen Entertainment; Black Lemon TV

Primeira exibição: Porto Alegre (RS), Fantaspoa XVI Festival de Cinema Fantástico de Porto Alegre [online; 24 jul-2 ago]-Première Latino-Americana, online em 31 jul, 1º, 2 ago 2020

 

Filme de episódios, sugerido pela equipe do FANTASPOA Festival Internacional do Cinema Fantástico de Porto Alegre, para manter o setor audiovisual em atividade, mesmo em meio à pandemia de covid-19. As histórias são independentes entre si, podendo ser vistas isoladamente. O elo em comum é a presença da crise sanitária, de algum nível. As filmagens aconteceram respeitando os protocolos de segurança, e mobilizaram cineastas de vários países.  A produção é de João Pedro Fleck, Fernando Sanches, João Pedro Teixeira, Nicolas Tonsho. Há dois representantes gaúchos. Em Estupidemia, de Junior Larethian, ocorre uma reflexão sobre a disseminação de notícias falsas, em meio a um mundo abalado pela crise sanitária. Em Psicopompo, de Giordano Gio, um indivíduo consegue manter contato com uma entidade egípcia mitológica, responsável por fazer contagens de mortos.

Sinopse


Letreiros iniciais: // 2020 tem seu espaço reservado na história como o ano em que um vírus foi responsável por parar o planeta inteiro. Em seus primeiros meses, em meio à quarentena e à crescente incerteza sobre o futuro, o festival Fantaspoa lançou um concurso para que cineastas de todo o mundo criassem suas histórias relacionadas à pandemia em suas casas, com os recursos que tivessem em mãos. Esta antologia reúne os 13 curtas-metragens mais representativos e criativos, registrando um recorte preciso de um momento que, se a humanidade tiver sorte nunca mais se repetirá. //

Episódios


[01/13] Quarentena sem fim | Direção: Fabrício Bittar. Companhia produtora: Clube Filmes (São Paulo, SP).
[02/13] O Último dia | Direção: Guillermo Carbonell. Companhia produtora: Murdoc (Uruguay).
[03/13] Estupidemia | Direção: Junior Larethian. Companhia produtora: Larethian Filmes (Eldorado do Sul, RS).
[04/13] Baldomero | Direção: Martín Blousson. Companhia produtora: Auch Films (Argentina).
[05/13] Jérôme: um conto de Natal | Direção: Beatriz Saldanha. Companhia produtora: Garmonbozia (São Paulo, SP).
[06/13] Eclosão | Direção: Alejo Rébora. Companhia produtora: Sarna (Argentina).
[07/13] A Mancha na parede | Direção: Daniel Pires. Companhia produtora: Museu do Medo (São Paulo, SP); Lenda.
[08/13] Pique esconde macabro | Direção: Julio Cesar Napoli Filho. Companhia produtora: Filmes Caseiros (Rio de Janeiro, RJ).
[09/13] Barata | Direção: Emerson Niemchick. Companhia produtora: Niemchicken Films (United States / Estados Unidos).
[10/13] Às vezes ela volta | Direção: Matheus Maltempi. Companhia produtora: Suco Excêntrico Filmes (Campinas, SP).
[11/13] Desenterrado | Direção: Karl Holt. Companhia produtora: Dark Line Entertainment (United Kingdom / Reino Unido).
[12/13] Psicopompo | Direção: Giordano Gio. Companhia produtora: Fehorama Filmes (Porto Alegre, RS); Machina Filmes (Porto Alegre, RS).
[13/13] Roleta russa | Direção: Andreas "splash" Kyriacou. Companhia produtora: Splash Screen Entertainment (Chipre); Black Lemon TV.


[01/13] Quarentena sem fim
Roteiro e direção
: Fabrício Bittar.
Elenco: Kael Studart (Pedro), Isabela Mariotto (Lara), Lucas Salles (Mike).
Produção: Fabrício Bittar, Lucas Salles.
Direção de fotografia: Eduardo Makino.
Operação de câmera: Igor Marotti.
Montagem: Pedro Dias.
Gráficos e motion: Paulo Valentim.
Mixagem: David Menezes.
Títulos alternativos: Endless quarantine.
Companhia produtora: Clube Filmes (São Paulo, SP).
Duração: c.7 min.

[02/13] O Último dia
Direção
: Guillermo Carbonell.
Elenco: Manuel Carbonell (Boy), Belén Carbonell (Girl), Daniel Byers (Announcer).
Produção: Pedro Lafferranderie.
Música: Hernán González.
Desenho de som: Andrés Costa.
UFO VFX: Production Crate.
Títulos alternativos: The Last day.
Idioma: Español; créditos em inglês.
Companhia produtora: Murdoc (Uruguay).
Duração: c.2 min.

[03/13] Estupidemia
Roteiro e direção
: Junior Larethian.
Elenco: Dani Berwanger (Mulher), Junior Larethian (Namorado), Lilo (Cão).
Títulos alternativos: Estúpidemia | Stupidemic.
Citações: Personagem Namorado usa camiseta com Marlon Brando em O Poderoso chefão.
Companhia produtora: Larethian Filmes (Eldorado do Sul, RS).
Duração: c.7 min.

[04/13] Baldomero
Direção
: Martín Blousson.
Elenco: Valeria Giorcelli (Valeria), Martín Blousson (Puppet man), Baldomero Fernández (Baldomero).
Música: Natalia Álvarez / emmapua.bandcamp.com.
Som: Sebastián González / www.elconodelsilencio.com.
Idioma: Español; créditos em inglês.
Agradecimentos: Fantaspoa, Javier, Macarena, Nico, Elián & Andrés.
Companhia produtora: Auch Films (Argentina).
Duração: c.3 min.

[05/13] Jérôme: um conto de Natal
Roteiro, direção, direção de fotografia e montagem
: Beatriz Saldanha.
Elenco: Jérôme (gato faminto), Carlos Primati (Homem morto), Juliana Santos (Locutora de rádio), Kuroneko, Ringo, Edgar (gatos na ceia de Natal).
Produção, assistência de direção, treinador de gatos, direção de stop motion: Carlos Primati.
Compositor, sonoplastia: Paulo Beto.
Colorista: Luciano de Azevedo.
Observações:
Títulos alternativos: Jérôme: a Christmas carol.
Agradecimentos: Juliana Santos, Dennison Ramalho, Filipe Marcus, Tiago Prado, Gurcius Gewdner, L. Borgia Rossetti, Luciana dos Anjos, Luciano de Miranda, Daniel Bandeira, Marcelo Miranda, Petter Baiestorf & Família Saldanha e os gatos Daphne & Mumim Mumi M.
Companhia produtora: Garmonbozia (São Paulo, SP).
Duração: c.5 min.

[06/13] Eclosão
Direção
: Alejo Rébora.
Elenco: Daniela Giménez (Dani), Diego Rosselli (Diego), Ignacio Bruno (Nacho), Alejo Rébora (Alejo), Leia Rébora (Niña).
Roteiro: Matías Oniria, Alejo Rébora.
Operação de câmera, arte: Daniela Giménez, Ignacio Bruno, Diego Rosselli, Alejo Rébora.
Ilustrações: Leia Rébora.
Animação: Daniela Giménez.
Música: Walter White Rock.
Edição, VFX: Alejo Rébora.
Títulos alternativos: Hatching out.
Idioma: Español; créditos em espanhol.
Companhia produtora: Sarna (Argentina).
Duração: c.7 min.

[07/13] A Mancha na parede
Direção e edição
: Daniel Pires.
Roteiro: Ricardo Martins.
Elenco: Juliana Seabra (Mulher), Miguel Theodoro (Menino).
Títulos alternativos: Stain on the wall.
Companhia produtora: Museu do Medo (São Paulo, SP); Lenda.
Duração: c.5 min.

[08/13] Pique esconde macabro
Direção, atuação e todo resto
: Julio Cesar Napoli Filho.
Inspirado nos stories de @matdefaria (Matheus Nogueira) e no episódio Amelia do filme Trilogia do terror (Trilogy of terror, Dan Curtis, 1975, US).
Arquivo: Filme: A Noite dos mortos-vivos (Night of the living dead, George A. Romero, 1968, US; versão colorizada)
Títulos alternativos: Macabre hide and seek
Companhia produtora: Filmes Caseiros (Rio de Janeiro, RJ).
Duração: c.7 min.

[09/13] Barata
Roteiro, direção, edição: Emerson Niemchick.
Elenco: Emerson Niemchick (Man), Kelli Cooley (Woman), Jacob Seidman (The Scale).
Observações: Em preto e branco.
Idioma: English; créditos em inglês.
Títulos alternativos: Roach.
Agradecimentos especiais: Mark McPherson, Natasha Behnam, Julie Phillips, Kelli Niemchick, The Von Hoffman Picture Company, Ella Bourne, Pat Horst & Prelinger Archives.
Companhia produtora: Niemchicken Films (United States / Estados Unidos).
Duração: c.7 min.

[10/13] Às vezes ela volta
Roteiro e direção
: Matheus Maltempi.
Assistência de direção: Eduarda Wilhelm.
Elenco: Alessandra Mata (Erica Ferraz), Giovana Telles (Elena Ferraz), Guilherme Henrique (Médico), João Pedro Reis (Johnny Reis).
Produção: Eduarda Wilhelm, Matheus Maltempi (São Paulo, SP).
Assistência de produção de elenco: Alessandra Mata.
Direção de arte: Alessandra Mata, Giovana Telles.
Direção de fotografia: Rafael Ismael.
Trilha sonora, desenho de som: Guilherme Vian.
Músicas: • "Glitching, Vinyl Record Player, A.wav" por Inspector J // (www.jshaw.co.uk) of Freesound.org
Montagem, motion: Taísa Ennes.
Créditos: Foleys.
Colorista: Rafael Ismael.
Títulos alternativos: Sometimes she comes back
Grafias alternativas: Tayssa Marques | Assistência de elenco
Agradecimentos: Meire Marcondes, João Pedro Reis, Giovana Santini, Guilherme Henrique & Giovanni Saluotto.
Companhia produtora: Suco Excêntrico Filmes (Campinas, SP).
Duração: c.7 min.

[11/13] Desenterrado
Direção
: Karl Holt.
Elenco: John Bowe (Man).
Observações: Créditos em inglês.
Títulos alternativos: Unearthed.
Companhia produtora: Dark Line Entertainment (United Kingdom / Reino Unido).
Duração: c.4 min.

[12/13] Psicopompo
Roteiro, direção e direção de fotografia
: Giordano Gio.
Elenco: Fábio Baltar Duarte (Yuri), Áurea Baptista (Anúbis), Matheus Piccoli (Brian D.), Passolargo (Gato 01), Zeitgeist (Gato 02).
Direção de arte: Daniel Miragem.
Som: Fábio Baltar Duarte.
Montagem e finalização: Matheus Piccoli.
VFX: Rafael Duarte.
Títulos alternativos: Psychopomp
Grafias alternativas: Fábio Baltar
Agradecimentos: Karen Eggers, Nando Barth, Rafael Machado Costa.
Companhia produtora: Fehorama Filmes (Porto Alegre, RS); Machina Filmes (Porto Alegre, RS).
Duração: c.7 min.

[13/13] Roleta russa
Roteiro, direção
: Andreas "splash" Kyriacou.
Elenco: Christodoulos Martas (Player 1), Maria Papacosta (Player 2), Andreas Phylactou (Player 3), Panayiotis Kyriakou (Player 4), Penny Finiri (The Partner), Andrew Kirk (Mr. Strain).
Música original: Christina Georgiou.
Character design: Nearchos Konstantinou.
Character animation: Stavros Christoforou.
Efeitos visuais: FXmou.
Intro design: GrussGott.
In game animated icons: IconsX.
Game backdrop: J Magix.
Digital clock: Markie Dee.
Post production services: GeekOtopos Collaborative Hive.
Observações: Créditos em inglês.
Títulos alternativos: Strain roulette.
Agradecimentos especiais: Artemis Psathas, Andrea Solomonides, Marinos Nomikos, Cat Von K.
Companhia produtora: Splash Screen Entertainment (Chipre); Black Lemon TV.
Duração: c.7 min.

Ficha técnica


PRODUÇÃO
Produção: João Pedro Fleck, Fernando Sanches, João Pedro Teixeira, Nicolas Tonsho.
Trilha sonora original: Ron Selistre.
Abertura e letreiros: Fernando Sanches.
Arte gráfica: Elizabeth Schuch.
Distribuição: Raven Banner (Toronto, CA); O2 Play (São Paulo).
Classificação indicativa: 18 anos.

ASPECTOS TÉCNICOS
Duração: 80 min (incluindo créditos iniciais = c.1 min + finais = c.4 min)
Som:
Imagem: cor, com exceção de: Barata, em pb
Proporção de tela:
Formato de captação:
Formato de exibição:

OBSERVAÇÕES
Títulos alternativos: The Pandemic anthology

Exibições


• Porto Alegre (RS), Fantaspoa XVI Festival de Cinema Fantástico de Porto Alegre [online; 24 jul-2 ago]-Première Latino-Americana, online em 31 jul, 1º, 2 ago 2020

Arquivos especiais


Crítica:

Lançado nas plataformas digitais (Looke, Now etc.), no início de agosto de 2020, talvez o primeiro filme a abordar o coronavírus e o estrago que ele tem feito ao redor do mundo, seja com mortes, seja no psicológico de todos nós, que estamos convivendo com o distanciamento social há já tantos meses, sem saber quantos mais vêm pela frente: trata-se de Antologia da pandemia, produzido por João Pedro Fleck, Nicolas Tonsho, João Pedro Teixeira e Fernando Sanches, todos vinculados ao Fantaspoa Festival de Cinema Fantástico de Porto Alegre, que recentemente teve a sua 16ª edição, em versão online.
A película aposta na composição em episódios, recurso clássico em narrativas cinematográficas de terror, como em Na solidão da noite (1945, com dois segmentos dirigidos pelo brasileiro Alberto Cavalcanti), Histórias extraordinárias (1968, com direção de Federico Fellini, Louis Malle e Roger Vadim, baseado na obra de Edgar Allan Poe) ou Creepshow I e II (1982 e 1987, por George A. Romero e Michael Gornick, respectivamente, a partir de Stephen King). Como costuma acontecer neste tipo de filme, em Antologia da pandemia o resultado é desigual, com episódios empolgantes e/ou fascinantes pelas questões que suscitam, e outros que pecam por seus atributos técnicos e/ou estéticos.
É mesmo difícil manter uma regularidade ao longo de 13 curtas – sete brasileiros, seis estrangeiros (UY, 2AR, US, UK, Chipre), os quais encontram a sua unidade temática na pandemia que assola o mundo ao longo deste inesquecível e inacreditável 2020. Não custa dizer que o número de episódios não está ali à toa, pois o treze traz consigo uma carga supersticiosa relacionada ao azar e uma simbologia política no Brasil.
Em quase todos, há o uso de ferramentas de comunicação, como Skype, WhatsApp e programas de videoconferências, evocando o "novo normal" dos tempos de hoje, em que reuniões de trabalho, festas de aniversário, aulas ou uma simples conversa para matar saudades de um amigo ou parente precisam ser mediadas pelo computador ou celular. Em sua maioria, os personagens estão ou sozinhos em suas casas, ou com seus animais de estimação, a maioria sem companhia humana, o que leva à irritação, à desmedida e à insanidade mental, elementos que temperam as histórias.
Nota-se a presença de subgêneros tradicionais do terror, em enredos permeados pela doença ameaçadora e pela tecnologia que deveria ser um bálsamo: zumbis, fantasmas, ficção científica, bonecos assassinos, loucura, pacto com o diabo, metamorfose. Chama a atenção, também, o viés distópico de certos episódios, o que aumenta a letalidade do vírus e a sua capacidade de disseminação, já grandes na vida real, com o fim de maximizar o terror – assim, observam-se sintomas como estupidificação (em Estúpedemia), animalização (em Eclosão) e zumbificação (Às vezes ela volta), ou maneiras de transmissão devastadoras, não só pelo contágio interpessoal, mas também pela Internet, por meio de áudios ou lives, em Quarentena sem fim e em Estúpedemia. O caráter apocalíptico fica claro no primeiro episódio, onde a epidemia ainda continua, em março de 2022, ou em O Último dia, em que o lockdown dura já exatos 2.153 dias (cerca de seis anos). Essa segunda, produção uruguaia, embora pequena em sua duração, é impactante em seu desfecho, ao estabelecer uma interessante oposição: dois objetos de baixa tecnologia (os quais sempre ganham importância nos momentos em que a sociedade entra em falência, algo comumente retratado na ficção científica), o livro que a menina lê, O Pequeno Príncipe (El Principito, na tradução em espanhol), e o rádio de pilha que o menino escuta versus o objeto altamente sofisticado, do ponto de vista técnico, que surpreendentemente aparece ao final.
Um aspecto louvável da coletânea é trazer o momento político do Brasil, devastado pelo governo inepto que desde 2019 afunda a nação, com descaso pela pandemia, pelo meio ambiente, pela educação, pela cultura, pela verdade, por tudo, enfim. Isso aparece em Estúpidemia e Psicopompo, em minha opinião dois dos episódios mais deficientes: o primeiro, pela atuação pouco convincente dos atores; o segundo, pela abordagem da questão da loucura paulatina causada pelo isolamento, tema fundamental no contexto, que poderia ser melhor explorado. Entretanto, paradoxalmente, ambos são certeiros ao lembrarem o contexto político atual: o fascismo que campeia no Brasil (no 3), a aceleração sem freio do número de mortos (retratada na voz que não para de contabilizar os que foram derrotados pela doença, no 12), os panelaços que cobriram o pais em determinado momento de 2020 (igualmente no 12).
Em agosto de 2020, quando escrevo, parece que as pessoas cansaram de protestar e perderam sua capacidade de indignação, abatidas pela permanência do "presidente" no cargo, a que se aferra não para governar tendo em vista a população em geral, mas para proteger a si e a seus familiares. E tudo isso com a complacência da grande mídia, das elites e do empresariado, que por vezes até atacam o conservadorismo atroz dos mandatários encastelados no Palácio do Planalto. Todavia, ao fim e ao cabo, esses grupos não querem o impedimento do governo, porque na economia o trabalho sujo que lhes convém – privatização desenfreada, aceleração de reformas, precarização da vida dos mais necessitados – está sendo feito por Paulo Guedes e companhia.
Por sua vez, um elemento que alivia o clima pesado da película é o humor, voluntário ou não, como nos bonecos que ganham vida em Baldomero e Pique esconde macabro, o que cria uma aura de "terrir" nos episódios: no primeiro citado, há a dúvida entre o caráter do boneco, se do "mal" ou do "bem"; já no segundo, o fato de a boneca ter sido adquirida pelo Mercado Livre imediatamente cria laços com o espectador, pois quem não comprou por essa plataforma durante a quarentena? Mais um exemplo de válvula de escape é a presença dos gatos em Jérôme: um conto de Natal, embora aqui essa suposta leveza se mescle a um pacto com o diabo, o que gera surpresa e estranheza. Aliás, como dito anteriormente, gatos e cachorros aparecem em outros episódios, como no terceiro e no décimo segundo, fazendo companhia às pessoas isoladas.
Entre sugestionar ou mostrar, dicotomia observada ao longo da história do cinema de horror, Antologia da pandemia apresenta bons exemplos dos dois caminhos. Um dos melhores episódios, Às vezes ela volta (título que lembra um conto de Stephen King, "Às vezes eles voltam"), aborda um tema que, por excelência, contém conteúdo explícito: zumbis. Aqui, no entanto, nada é mostrado, pois tudo acaba sendo imaginado pelo espectador, por intermédio das mensagens de WhatsApp trocadas pela protagonista, sua irmã e sua mãe. Já os curtas A Mancha na parede, Barata e Desenterrado ocupam-se em maior medida com o susto final e o medo, sensação fundamental no gênero. A Mancha na parede e Desenterrado constroem muito bem a escalada de tensão, com personagens que, isolados, parecem perder o senso, criando uma atmosfera fantástica, em que já não se sabe o que é realidade e o que é imaginação. A produção norte-americana Barata traz uma cena final tétrica, que lembra aquela passagem de Pulp fiction, em um porão de loja, ou filmes tipo O Albergue e Jogos mortais.
Outro curta que se destaca é o décimo terceiro e último, Roleta russa. O episódio que encerra a antologia é ambientado em uma sala de videoconferência, com homens e mulheres interagindo a distância, em uma brincadeira macabra para ver quem pega o coronavírus primeiro. As pessoas mostram-se com os nervos à flor da pele, em decorrência da incerteza trazida pela pandemia, tão desnorteadas que chegam ao ponto de jogarem com a morte e a doença – o ser humano, pouco resistente, confrontado com situações extremas, deixa-se entregar facilmente ao acaso ou à ira.
Antologia da pandemia é uma montanha-russa de emoções, oferecendo visões ora trágicas, ora cômicas do momento peculiar pelo qual todos estamos atravessando. A par das limitações técnicas e físicas de uma produção feita por cada um dos diretores a partir de sua situação particular de isolamento, o conjunto merece ser visto, mesmo por quem não aprecia o gênero horror, pois é, desde já, um documento histórico que dá conta, para as gerações futuras, do que se passa hoje no mundo e em especial no Brasil, afinal, o que foi mesmo que fizemos para merecer, ao mesmo tempo, a covid-19 e o "presidente" Bolsonaro?
(Mauro Nicola Póvoas. conversadecinema.blogspot.com, ago 2020, gentilmente cedido para o Portal.)

Como citar o Portal


Para citar o Portal do Cinema Gaúcho como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:
Antologia da pandemia. In: PORTAL do Cinema Gaúcho. Porto Alegre: Cinemateca Paulo Amorim, 2024. Disponível em: https://cinematecapauloamorim.com.br//portaldocinemagaucho/1268/antologia-da-pandemia. Acesso em: 18 de maio de 2024.