Entrei em pânico ao saber o que vocês fizeram na sexta-feira 13 do verão passado (2001)

Brasil (RS)
Longa-metragem | Ficção
VHS, cor, 120 min

Direção: Felipe M. Guerra.
Companhia produtora: Necrófilos Produções Artísticas

Primeira exibição: Carlos Barbosa (RS), Cine Ideale, 23 dez 2001, dom

 

Mistura de horror e comédia, da Necrófilos Produções Artísticas, que satiriza franquias norte-americanas sobre assassinos em série, como Sexta-feira 13 (Friday the 13th, Sean S. Cunningham, 1980), Pânico (Scream, Wes Craven, 1996) e Eu sei o que vocês fizeram no verão passado (I know what you did last summer, Jim Gillespie, 1997), Entrei em pânico ao saber o que vocês fizeram na sexta-feira 13 do verão passado é um dos mais conhecidos exemplares do cinema fantástico produzido no Rio Grande do Sul. Filmado no formato VHS, na cidade de Carlos Barbosa, por um jovem cinéfilo auxiliado por amigos e familiares (com orçamento de cerca de R$ 200), o longa obteve inesperada repercussão nacional – sendo alvo de matérias em veículos como a finada revista Set (1987-2010) e a TV Globo. Na época, cerca de 500 cópias foram comercializadas via internet, ao custo de R$ 20 cada, num modelo de negócio que se inspirou em experiências feitas pelo cineasta independente Petter Baiestorf, em Santa Catarina.

A primeira versão de Entrei em pânico ao saber o que vocês fizeram na sexta-feira 13 do verão passado teve duas horas de duração. Mas ficou grande demais na opinião do próprio realizador, que fez a montagem com a tecnologia da época – de um videocassete para outro, sem gostar do resultado final. A fim de adequar a fita ao padrão que costuma ser observado em filmes de terror (uma hora e meia), foram feitas edições ao longo dos anos, que foram diminuindo a duração total, passando para 90, 83 e 81 minutos, respectivamente. No Fantaspoa Festival Internacional de Cinema Fantástico de Porto Alegre de 2021, em comemoração aos vinte anos de lançamento, foi apresentado o menor formato (81 min) com a seguinte epígrafe: "Um filme bom nunca é longo demais. Um filme ruim nunca é curto demais", frase do crítico Roger Ebert (1942-2013). Dessa forma, este é um curioso caso de um filme que foi diminuindo de tamanho, ao longo dos anos – o corte original passou apenas no ano de estreia.

O horror se passa numa pequena cidade de colonização italiana, no interior, e é vivenciado por um grupo de jovens que está se preparando para a formatura. Em meio a uma festa na casa de um deles, o grupo se depara com um assassino mascarado, que promove um massacre humano no local. As mortes incluem o uso de ferramentas como facas, facões, martelos, motosserras e até torneiras. O sangue foi criado a partir da mistura de groselha com outros produtos, tais como Coca-Cola e Nescau. A motivação dos crimes é a vingança contra o bullying que o antagonista havia sofrido daquelas pessoas, na escola. Em entrevista ao pesquisador Rodrigo Figueiredo Nunes, o diretor Felipe M. Guerra declarou que ele mesmo havia praticado bullying quando era adolescente, descrevendo o trabalho como uma espécie de "pedido de desculpas" a um antigo colega.

A comédia se manifesta na metalinguagem com o próprio audiovisual, uma vez que o filme não tem vergonha de debochar de seu gênero. Há a figura de um colecionador e pesquisador, que se propõe a criticar os principais clichês vistos no subgênero slasher, os filmes de matança: "Seguem, quase sempre, uma mesma sequência lógica: os personagens mais santinhos nunca morrem, enquanto os que aprontam (bebem, fumam, fazem sexo) morrem sempre. E, quando estão sendo perseguidos pelo assassino, os personagens fazem as coisas mais estúpidas, como subir numa escada – ao encontro dele, ao invés de fugir pela porta da frente. Além do vilão sempre ressuscitar, é claro". Guerra tentou combater alguns desses estereótipos, matando primeiro quem era virgem. Fã de humor, ele havia realizado antes uma comédia chamada Patrícia Genice (1998), que foi bem recebida a despeito do baixo orçamento, e sabia que não teria condições de fazer um filme de terror 100% sério.

O apresentador Luciano Huck, fã confesso do filme, procurou Felipe M. Guerra para atuar em um trabalho semelhante, o curta Mistério na Colônia (2003), também filmado em Carlos Barbosa. Em 2011, foi feita a continuação, Entrei em pânico ao saber o que vocês fizeram na sexta-feira 13 do verão passado – Parte II – A hora da volta da vingança dos jogos mortais de Halloween. Formado em Jornalismo pela UNISINOS Universidade do Vale do Rio dos Sinos, Felipe M. Guerra também fez mestrado em Comunicação Social e trabalhou como pesquisador, além de ter sido programador do Cine Santander Cultural, em Porto Alegre, até se mudar para Portugal, em 2019 – sem jamais deixar de filmar.

Sinopse


Cartelas 2001: // Em outubro de 1994, três estudantes de cinema desapareceram na floresta perto de Burkittsville, Maryland enquanto rodavam um documentário. Um ano depois, suas fitas foram encontradas. // Mas isso não tem nada a ver com o filme que será exibido agora. Portanto, esqueçam... Obrigado. //

Epígrafe 2021: // "Um filme bom nunca é longo demais. Um filme ruim nunca é curto demais". – Roger Ebert. //

Goti e seus amigos Marcelo, Eliseu, Tomás, Ido e Geison irão se formar na noite de sexta-feira 13. Para comemorar, decidem que irão fazer um aquecimento na casa de Goti com muita bebida, drogas e "até mulher", já que seus pais foram embora e quem está cuidando da casa é seu irmão mais velho, Fabiano, que ficou conhecido por causa de sua coleção de filmes de terror. O que eles não esperavam é que um assassino mascarado invadisse a festa e, à medida que a noite avança, um a um fosse assassinado.

Sinopse longa:
Em Carlos Barbosa, numa quinta-feira de noite (dia 12), Cintia percorre a sua casa, sozinha, fumando cigarros e bebendo álcool. O telefone da residência toca. A moça atende, e começa a conversar com um homem cuja identidade é desconhecida. Ele está muito interessado em saber mais sobre ela, mas recebe respostas evasivas. O diálogo passa a ser sobre filmes de terror, uma vez que várias fitas de vídeo (Halloween, A Hora do pesadelo, Demons) foram alugadas pelo namorado dela. Esse namorado, no entanto, não está em casa, e o indivíduo do telefone surge no jardim – vestido de preto e com uma máscara branca –afirmando que irá matá-lo, caso a garota não acerte perguntas sobre cinema.

Um questionamento é feito: o filme Pânico 3 tem roteiro? Ela pede ajuda universitária – de três jovens da UFRGS Universidade Federal do Rio Grande do Sul, que aparecem sentadas perto da piscina, sendo incapazes de chegar a uma conclusão. Diante da indecisão, o assassino mata as três estudantes, utilizando um facão. Cintia, então, decide dizer que "sim, Pânico 3 tem roteiro". O mascarado afirma que a resposta está errada, e utiliza uma serra elétrica para liquidar o companheiro dela. Há, porém, uma nova chance de Cíntia sobreviver: deve explicar o final do filme A Bruxa de Blair – algo impossível para ela, uma vez que afirma estar tentando entender o desfecho, até hoje. É a senha para que o vilão invada a residência a esfaqueie.

No dia seguinte, é sexta-feira 13. Em casa, dois amigos assistem televisão, e acertam os detalhes para uma grande festa que vai acontecer nas próximas horas, aproveitando o fato de que suas famílias estão viajando. Eles vão comprar os preparativos, incluindo muita cerveja, maconha e camisinhas. Começam a escolher as meninas que serão convidadas para o encontro, tendo especial atenção para uma: Niandra, considerada a mais bonita da região. Mas mesmo figuras consideradas estranhas ou excêntricas devem aparecer, como aqueles que sofrem bullying no colégio. O irmão mais velho de um dos rapazes, porém, demonstra preocupação com a noitada, e afirma que estará de olho nos acontecimentos. Perto dali, o mascarado que promoveu um massacre anterior aparece de novo, observando um casal, em um parque.

Ficha técnica


ELENCO
Rodrigo M. Guerra (Goti), Niandra Sartori (Niandra),
Marcelo Ferranti (Marcelo), Diego M. Guerra (Ido),
Tomás André Zilli (Tomás), Larissa Mazocato (Larissa),
Fábio Prina da Silva (Geison), Eliseu Demari (Eliseu).
Participação especial: Fabiano Taufer (Fabiano).
Cintia Dalposso (Cintia), Andrius Berté (Namorado nº 1), Paulo Dalle Laste (Namorado nº 2), Leandro Facchini (Repórter), Kátia Dalcin, Cristiane Bristot, Clarissa Flores (Universitárias), Tatiana Mantovani (Tati), Mathias Gusso (Mathias), Vanessa Dalcin (Carla).
Dublês do Assassino: Rodrigo M. Guerra, Diego M. Guerra, Paulo Dalle Laste.
Voz (não creditado): Felipe M. Guerra (Assassino).

DIREÇÃO
Direção: Felipe M. Guerra.

ROTEIRO
Roteiro: Felipe M. Guerra.

PRODUÇÃO
Produção: Felipe M. Guerra, Eliseu Demari.

FOTOGRAFIA
Direção de fotografia: Felipe M. Guerra.

ARTE
Efeitos especiais e maquiagem: Felipe M. Guerra.

MÚSICA
Músicas (ordem de inserção, não creditadas):
• "Beware" (Al Green) por The Afghan Whigs
• "I, Zombie" (música: White Zombie, letra: Rob Zombie) por White Zombie
• "Mexican standoff" (Graeme Revell) por Graeme Revell [music from the motion picture From dusk till dawn, Robert Rodriguez, 1996, US-MX]
• "The Reckoning" (James O'Connor, Jason Miller, Mike Miller, The Method aka Ullrich Hepperlin) por Godhead
• "Flores em você" (música, letra: Edgard Scandurra) por Ira!
• "Sweet dreams (are made of this)" (música, letra: David A. Stewart) por Marilyn Manson
• "Smack my bitch up" (Cedric Miller, Keith Matthew Thornton, Liam Howlett, Maurice Smith, Trevor Randolph) por Prodigy
• "The Killing Moon" (Ian McCulloch, Les Pattinson, Pete De Freitas, Will Sergeant) por Echo & The Bunnymen
• "Psycho-Suite" (música: Bernard Herrmann) [from Psycho, Alfred Hitchcock, 1960, US]
• "Carmina Burana: O Fortuna / Fortune plango vulnera" (Carl Orff) por Berliner Rundfunkchor, Rundfunkchor Berlin, Riccardo Chailly & Radio-Symphonie-Orchester Berlin
• "Messiah: Hallelujah" (Georg Friedrich Händel)
• "Oye, oye" (Alan Silvestri) por Alan Silvestri [music from the motion picture The Mexican, Gore Verbinski, 2001, US]
• "Mysteries of love" (música: Angelo Badalamenti, letra: David Lynch) por Julee Cruise
• "Dogs" (David Gilmour, Roger Waters) por Roger Waters
• "Ruído rosa" (música, letra: John Ulhoa) por Pato Fu [no rádio]
• "Cavatina" (música: Stanley Myers) por John Williams (guitar solo) [original motion picture soundtrackThe Deer hunter, Michael Cimino, 1978, US-UK]
• "Sonata Claro de la luna" ["Moonlight Sonata"] (Ludwig van Beethoven) por Orquesta Club Miranda [álbum Un Desayuno de pelicula]
• "I'm so bored with the U.S.A." (Joe Strummer, Mick Jones) por The Clash
• "Feel good hit of the summer" (Joshua Homme, Nick Oliveri) por Queens of the Stone Age
• "The Reckoning" [reprise; créditos finais]

• músicas da trilha sonora do PC game Blood

ARQUIVO
Vídeo: Paixão das lésbicas.

Citações:
Fitas VHS: Halloween; Demons; A Hora do Pesadelo; Ratos.

FINALIZAÇÃO
Edição: Felipe M. Guerra.
Créditos: Ede Demari.

EQUIPE 2021
Reedição 2021: Marie Pergufel.
Assistência de reedição: Daniela Monteiro.
Cenas adicionais: Petter Baiestorf; internet archive.
Cabeça decepada: Ricardo Ghiorzi.
Música: Kevin MacLeod; Purple Planet; Soundscrate.
Efeitos sonoros: freesound.org

MECANISMOS DE FINANCIAMENTO
Companhia produtora: Necrófilos Produções Artísticas (Carlos Barbosa).

AGRADECIMENTOS
Agradecimentos: Atores recrutados de última hora que não recusaram, Quito e Neusa Guerra (por permitirem a zona na casa), DP e Brigada (por novamente não ter nos prendido), Accarte, Mecânica Misturini (por cortar os facões), Geraldo Canal (pelas tripas de porco), De Marchi Áudio e Vídeo (pelas fitas vendidas a prazo), Elton Demari (pela ligação telefônica), Osama Bin Laden (por nos proporcionar um dia de adrenalina em setembro).

FILMAGENS
Brasil / RS, em Carlos Barbosa.
Período: ao longo de oito meses.

ASPECTOS TÉCNICOS
Duração: 120 min | 81 min (2021)
Som:
Imagem:
Proporção de tela:
Formato de captação: VHS
Formato de exibição: VHS

OBSERVAÇÕES
Ficha técnica a partir da primeira versão (2001).
Créditos finais 2001: // Nenhum animal foi machucado na realização deste filme – somente o Prina. //
As músicas foram identificadas pelo aplicativo Shazam e revisadas por Felipe Guerra, que acrescentou por mail (em 29 fev 2024) o seguinte: "Na versão reeditada que eu relancei recentemente, esta trilha sonora foi toda trocada para músicas com direitos autorais livres. Acho que só ficou o Pato Fu porque não teria como substituir a música que toca na própria cena".

Créditos iniciais 2021: // Um filme amador de Felipe M. Guerra //
Créditos finais 2021: // Originalmente editado em VHS e lançado em dezembro de 2001. Totalmente reeditado em março de 2021. // Produza seus próprios filmes. É fácil. É divertido. //

Remontado em 2009 para 90 min, em 2010 para 83 min, em 2021 para 81 min.
Marie Pergufel é pseudônimo de Felipe M. Guerra.

As cópias analisadas são a da primeira versão de 2001 e a de 2021.

Titulos alternativos: Entrei em pânico ao saber o que vocês fizeram na sexta-feira 13 do verão passado redux (2021)
Grafias alternativas: Larissa Mazocato (i) e Larissa H. Mazocato (f) | Tomás André Zilli (i) e Tomás A. Zilli (f) | Kevin Mcleod

Exibições


• Carlos Barbosa (RS), Cine Ideale, 23 dez 2001, dom

• São Paulo (SP), 2ª Mostra Cinema de Bordas [20-25 abr], Itaú Cultural, 22 abr 2010, qui, 20h30 + 25 abr, dom, 16h [versão recut com 90 min]

• Porto Alegre (RS), Fantaspoa 6º Festival Internacional de Cinema Fantástico de Porto Alegre [2-18 jul], CineBancários, 18 jul 2010, dom, 19h (comentada com diretor) [versão recut com 83 min]

• Rio de Janeiro (RJ), RioFan Festival Fantástico do Rio [19-24 jul], Caixa Cultural Sala 2, 21 jul 2011, qui, 16h10

• Porto Alegre (RS), Fantaspoa 17º Festival Internacional de Cinema Fantástico de Porto Alegre [online 9-18 abr], abr 2021 [versão redux 81 min]

Arquivos especiais


Trecho de entrevista realizada para a pesquisa de mestrado O Cinema fantástico no Rio Grande do Sul (1960-2020), de Rodrigo Figueiredo Nunes:

Felipe: Eu fiz esse filme em 2001, porque ia sair o Jason X (James Isaac, 2001, US-CA), o décimo filme da franquia Sexta-feira 13, dessa vez tendo como cenário o espaço. Eu e um grande amigo com quem eu trabalhava na redação de um jornal (o Eliseu Demari, que aparecia no Patrícia Genice como ator), a gente era viciado em filmes slasher. Por causa do Jason X, a gente decidiu fazer uma maratona de Sexta-feira 13, assistir todos os nove anteriores, para chegar no décimo. Na época era VHS. Aí a gente assistiu. Tava muito em evidência filmes como Pânico (Scream, Wes Craven, 1996, US), Eu sei o que vocês fizeram no verão passado (I know what you did last summer, Jim Gillespie, 1997, US), era uma época em que o slasher voltou à moda, mas com filmes ruins. Não eram nem sangrentos, sabe? Da série Sexta-feira 13, por piores que sejam, os filmes têm umas mortes muito sangrentas que eram divertidas de ver. E os Pânicos e tal nem isso têm. Então, a gente fez a maratona, e eu disse: "Como eram legais os slashers de antigamente, porque hoje os caras fazem, são super ambiciosos e pretensiosos, e não tem sangue, não tem nada; por que não fazer um filme slasher?". Eu perguntei pro Eliseu, e pensamos em fazer a sério. Mas vimos que não ia dar certo... porque, lembrando Patrícia Genice, como tinha sido caótica a filmagem, a falta de qualidade do VHS... percebemos que as pessoas iriam rir, não dava para fazer a sério. Então, eu disse: "Vamos fazer uma sátira". Um pouco antes tinha saído Todo mundo em pânico (Scary movie, Keenen Ivory Wayans, 2000, US), brincando com o Pânico. "Vamos tentar fazer uma sátira desses elementos de slasher movies, disso do assassino mascarado e tal". É por isso que surge um filme assim, com esse título gigantesco, que já entrega as referências. E tem várias piadas inspiradas nesse universo de slasher: o assassino se chama Geison (aportuguesado do Jason Vorhees), então você já sabe desde o início quem é o assassino; ele usa a máscara do Pânico, que eu acho que ficou muito datado, se você ver hoje o filme (minha ideia é que ele usasse uma máscara diferente à cada morte... mas ficamos só na do Pânico porque as outras não ficaram tão boas; tinha uma de Sexta-feira 13 que permitia identificar o assassino pelo cabelo, já que ele não era careca). É uma coisa que eu me arrependo, porque acho que ficou datado demais mesmo, apenas vinculado ao Pânico. E o filme têm vários contraclichês, por exemplo: o cara virgem é o primeiro que morre, todos os personagens usam drogas (não tem como saber quem morre e quem sobrevive... pela lógica tradicional do slasher, que pune quem bebe ou trepa com a morte), então eu tentei fazer o contraclichê. Não sei se ficou muito interessante, porque tu vê o filme hoje e todo mundo usa droga... é um negócio que... sei lá, não curto jamais essa ideia. Mas tem seus momentos. O problema é o seguinte: como te expliquei antes, o processo da edição no videocassete era muito rudimentar. E, depois que você começava a fazer, não dava para voltar e corrigir no começo. Então, eu ia editando o filme e, quando eu via, já tava com 50 minutos de projeção sem ter começado as mortes ainda...Então, o que eu fiz? Apressei a parte final, com uma morte atrás da outra, mas mesmo assim ficou com duas horas o filme. E foi engraçado porque eu não consegui botar os créditos finais direito, já que a fita só gravava duas horas... pessoal (pessoal, no caso tu, que tá ouvindo, é bom lembrar vocês que são mais jovens).

Rodrigo: Só podia 120 minutos.

Felipe: 120 minutos em SP, que era a qualidade boa, né? Então, a fita acabava antes de terminar os créditos finais... um horror! E como eu falei, tu não podia voltar e corrigir do começo, que nem hoje. Então, o filme ficou com duas horas, que eu acho insuportáveis, mas passou no cinema, em Carlos Barbosa (que tinha uma sala de cinema, passou lá; obs: veio a ter essa sala depois, nos anos 1980 Felipe disse que não tinha). Na época, ele foi muito falado por causa do título, já que a internet estava começando, e as pessoas comentavam em fóruns e bate-papos de cinema. Eu também ficava espalhando... começou a sair em sites (não tinha Google na época), mas as pessoas sabiam o que estava acontecendo o negócio. E chegou a um ponto que uma revista da Espanha (chamada Fabulando Espantos, que não existe mais, eu procurei) entrou em contato, em busca de uma cópia para fazer uma resenha! Naquela época! E eu mandei a cópia, sem legenda, nem nada, porque não dava para "queimar a legenda no vídeo". E os caras mandaram o review, enviaram a revista para mim... disseram que era "una bazura" (um lixo), mas mesmo assim eu achava ótimo porque o filme estava sendo visto fora de Carlos Barbosa. Aí eu percebi que, como o Petter Baiestorf fazia, eu poderia vender esse filme. Foi engraçado porque, já pensando no DVD que estava começando também, eu fiz a versão normal e a versão de colecionador (uma fita de 160 minutos, que também vendia) e aí botei extras, cenas que deram errado, cenas cortadas etc.. Teve meia dúzia de pessoas que compraram, porque essa versão era mais cara. Eu nunca mantive dados de venda, mas eu acho que vendeu pelo menos 500 cópias, do VHS Entrei em pânico 1. E eram 20 reais que eram cobrados, na época. Mal cobria os custos do processo. Mas, foi um filme que me rendeu um dinheiro que talvez eu não tenha sabido aproveitar direito. Inclusive porque o dinheiro que a gente ganhou eu guardei para fazer o Canibais & solidão (2006). Eu fiz um filme com o dinheiro do outro... algo que eu nunca consegui fazer. O principal mérito do Entrei em pânico foi que eu não queria ser marcado como um cineasta de terror, embora eu gostasse do gênero, gostasse de escrever sobre... eu gosto de comédia, me acho melhor fazendo comédia do que fazendo horror. E eu queria fazer outro tipo de filme, queria me aventurar. Tinha feito comédia romântica, sátira de slasher, queria que os próximos pudessem ser um filme de aventura, de faroeste etc. Mas acabei sendo bem marcado como um cineasta independente de horror. E aí saiu no Fantástico, o Luciano Huck ficou sabendo, foi um negócio surpreendente, saiu na revista Set. A Set tinha uma sessão chamada "Vídeo Caseiro do Mês", e saiu lá. Aí, muita gente também quis comprar. Eu nunca fiz uma pesquisa séria para poder dizer, mas é um dos títulos mais conhecidos do cinema independente brasileiro, com certeza! É conhecido, citado, embora nem todo mundo tenha visto. É um filme que rodou de uma maneira muito limitada, não passou em festival nenhum (porque ainda tinha esse negócio de "vídeo não é cinema"). Eu vendi essas 500 fitas, que até hoje circulam por aí (já vi no Mercado Livre para vender). E depois eu recolhi o filme, porque acho muito ruim! Tem um cara chamado Getro, que tem um site de horror. Ele veio para o Fantaspoa nesse ano e me disse que tinha uma fita desse filme. Eu não acreditei, ele me mandou a foto. Era verdade! Getro Guimarães era o nome do cara. Eu não gosto do filme. Provavelmente seja o meu pior filme! Eu não gosto mesmo.

Rodrigo: E o pessoal dos Estados Unidos nunca te contatou? Oh, está tendo uma refilmagem, uma versão brasileira do filme.

Felipe: Não, nunca! Foi algo que eu até fiquei com medo, em algum momento da vida... Isso foi uma coisa que eu aprendi também, muito cedo: tu pode fazer o que tu quiser nesse negócio de cinema independente, sabe? Pode botar música de banda famosa (que eu já fiz também), pode botar cena de filme, pode brincar com a máscara do Pânico. O que tu não pode é começar a ganhar dinheiro... porque, aí sim, eles vão te pegar! Se ficasse num esquema em que eu estivesse ganhando dinheiro com isso, eles iam certamente me encher o saco. Mas nunca aconteceu, nunca deu nada. Olha aí a crítica (no computador). Tu imagina para um cara, numa cidadezinha de 20 mil habitantes, ganhar uma resenha de um filme que eles fizeram em casa, em suas garagens, numa revista espanhola... era uma loucura! Ninguém imaginou...isso era o equivalente a ganhar o Oscar, na época. Nunca imaginei que ia passar muito disso. E olha onde cheguei, né? Enfim, por conta disso, me abriu as portas para fazer o Mistério na Colônia, com o Luciano Huck. Mas, sobre Entrei em pânico 1, é como eu disse: ele é mais comédia do que terror, embora tenha umas cenas bem sangrentas, porque eu queria fazer essa coisa Um Lobisomem americano em Londres. Tipo: quando é engraçado, é engraçado; quando é terror, é terror. Não queria que fosse só engraçado. Ele tem umas piadas bestas, como uma na qual o assassino enfia uma torneira no pescoço do cara e abre, para sair sangue... mas tem cenas que são para ser pesadas: como quando ele mata um cara com uma martelada na cabeça (que tá uma cena mal-feita, mas é um cena pesada). Então... não funciona, mas ele tenta ser sério algumas vezes. Talvez seja um problema do filme, porque se fosse mais comédia, funcionaria melhor. É algo que eu não gosto muito. Aí, um tempo depois... como eu falei, eu não gosto do filme, mas eu tentei consertar ele: peguei a versão do VHS mesmo (não olhei os meus masters ou originais), e comecei a cortar no computador. Isso aqui não, botei música, botei efeitos sonoros, e aí ficou essa versão de 70 minutos. Essa versão passou no Fantaspoa, lá por 2011, 2012. E o pessoal gostou. Embora eu continue achando ruim! O que eu teria que fazer, para gostar do filme, seria pegar os masters (as cenas brutas), porque o que eu me lembro, daquela época, é como te expliquei: eu fui editando num videocassete. Quando eu vi que tava muito longo, comecei a cortar coisa por cortar, né? Então, eu lembro que têm cenas legais no filme, que eu deixei nas fitas, eu não cheguei a editar. Então, precisaria capturar tudo de novo e ver cenas boas, cenas melhores, porque eu nunca fiz isso (nunca revi os masters). Mas acho que até poderia sair um bom filme, disso. Um filme divertido, pelo menos.

Rodrigo: Tem a questão do bullying.

Felipe: Sim! Isso é muito bom. Antes de falar em bulliyng, já tinha isso. Porque o que acontecia? Isso é um negócio meio... uma hora quando eu tiver um tempo (porque ele anda cada vez mais escasso), eu quero pegar as masters e fazer tudo isso de novo. Aí sim, eu lanço ele, boto no YouTube. Mas, por enquanto, ele fica trancado porque eu não gosto. Ele tá tão datado que ele tem piada com o "Show do Milhão", do Silvio Santos. Que não faz o menor sentido. Mas voltando ao negócio do bullying. Na época, a gente já tava na faculdade e tal. Mas eu lembro e trouxe isso para a vida... não é um trauma, mas é algo que eu lembro... a gente tinha um rapaz na nossa turma, que sofria muito bullying. Porque ele morava no interior mesmo! A gente era uma cidade do interior, morava no meio do mato. E ele sofria muito bullying dos colegas. E, naquela época, como tu deve saber, porque também estudou nos anos 1980, era "Lei do Mais Forte": se tu não quer sofrer bullying, você tem que fazer bullyng junto com os outros. Eu mesmo fiz muito bullying com esse cara e é algo que até hoje eu me arrependo. Eu adoraria encontrá-lo para pedir desculpas. Provavelmente, ele vai querer me matar, porque o cara sofria muito bullying mesmo. E aí eu fiz esse filme meio que como um "pedido de desculpas". Embora não funcione, claro, como tal. Mas deu para mostrar: pessoal, o bullyng é horrível; não façam. E foi antes das pessoas tratarem o bullying como algo tão sério... isso que é divertido. Então é isso: o assassino sofreu bullying no colégio, por causa do nome dele e da associação com Sexta-feira 13. E ele pegou e matou todo mundo.  Acho que é um motivo válido... se você sofre bulliying, você tem que dar o troco mesmo. Não talvez de uma maneira tão violenta, mas é algo que me marcou na vida, esse cara ter sofrido tanto bullying e ter sido algo que eu testemunhei. Não era para ter sido tão sério, mas acabou ficando como um registro. Enfim, eu sinto vergonha do filme, não me orgulho muito, não.

Rodrigo: Talvez tenha sido o filme fantástico gaúcho mais bem sucedido, em termos de repercussão.

Felipe: Provavelmente. Depois, o Porto dos mortos (D. de O. Pinheiro) que passou em festivais fora. Mas, até então, foi. E antes de pesquisar, que nem tu fez, eu jurava que era o primeiro longa fantástico gaúcho. Mas, depois, apareceu o Khouri. Agora, assumidamente fantástico, talvez seja, hein. As Filhas do fogo foi filmado aqui, mas não é uma produção gaúcha, é paulista. 100% gaúcho pode ser o primeiro de horror. Embora eu não goste do filme, reconheço esse mérito. E é por isso que eu fico muito puto quando os caras ficam fazendo pesquisa sobre (não tu, só deixar bem claro) as origens do cinema brasileiro, origens do cinema independente daqui, e não citam filmes feitos em VHS. Eles acham que não é cinema. Eu fico muito puto com isso e eu acho que é uma sacanagem. Nessa época, ninguém estava fazendo mais longa em película. Foi logo depois que o Collor acabou com a Embrafilme. A Retomada estava começando, com Carlota Joaquina, princesa do Brazil (Carla Camurati, 1995, BR), O Quatrilho (Fábio Barreto, 1995, BR). Estava se fazendo muito pouco filme brasileiro nessa época. Então, tu ter longas em VHS era uma maneira de tu fazer filme, nessa época. Porque não tinha longa! Se tu pesquisa isso aí, pouquíssima gente fez filme. Então, era gente em VHS que tava fazendo. Mas tira isso aí, meu, que coisa horrível (fazendo menção ao filme sendo reproduzido num notebook).

Rodrigo: O custo para fazer esse filme?

Felipe: Eu acho que foi de 150 a 200 reais. Porque eu não paguei ninguém. Eu não comprava comida para as pessoas, o que é uma sacanagem muito grande. Os efeitos eram muito rudimentares. Naquela época, sempre é bom lembrar, você não tinha o Google para ficar pesquisando coisas. Então, hoje, se você botar lá "como fazer sangue falso", tem um milhão de receitas profissionais para fazer. Naquela época, não tinha. Cada morte eu fui testando um sangue diferente. 1) Groselha; 2) Groselha misturada com tinta vermelha; 3) Mercúrio cromo. Pode reparar, ao assistir ao filme, cada sangue é um cor. E demorou até eu achar uma fórmula que ficasse boa: suco de groselha, misturado com Coca-Cola, misturado com Nescau. Ficava grosso e não desaparecia da pele. O suco de groselha sumia... ele secava e sumia. E essa fórmula não, essa aí sujava mesmo. Então, esse é o problema do VHS. A gente era tudo uns guri novo, entendeu? A gente não tinha dinheiro. O VHS já era ruim, a imagem e o som. Então, a gente não se preocupava muito com a qualidade da coisa. Filmava de um take (só). Ah, mas o cara riu... ah, mas o cara olhou para a câmera... vai assim mesmo! Continua! Então, não tinha uma preocupação muito grande com a qualidade da fotografia, com a qualidade de filme... eu não tenho muito orgulho da minha direção, digamos. Porque eu estava preocupado com essas coisas... como eu vou fazer o sangue? Era isso que me importava. Se o cara vai aparecer com uma camisa de outra cor, a continuidade... eu não me importava. E eu estava fazendo tudo, então eu tinha que pensar na prioridade (que era o sangue). Então, claro, não é um filme que eu me orgulho. Acho muito mal feito! Eu teria que revê-lo e reeditá-lo. Mas, abriu todas essas portas.

Rodrigo: E só para fechar, o custo x benefício.

Felipe: 500 fitas, a 20 pilas...Deu 10 mil. Tu já pensou? Sim, meu! Isso que é o mais estúpido, o mais absurdo. Por isso que eu falei: Canibais & solidão foi bancado com isso, e sobrou dinheiro. Me lembro que a gente fazia muita festa, na época, churrascos e tal, com o dinheiro do Entrei em pânico 1. Eu lembro que, olha a asneira!, a gente fez uma noite de entregas do Felipito, que era um prêmio tipo Kikito, porque foi feita uma votação popular depois da estreia do filme, em que as pessoas escolhiam melhor ator, melhor morte, melhor casal. E eu fiz uma premiação com isso. Comprei umas estátuas de R$ 1,99, fiz um churrasco para todo mundo, lá em casa. Então, metade do dinheiro foi ali...E teve a premiação dos melhores do filme... uma loucura! Para ver como a gente levou o troço a sério. Mas foi o único filme com o qual eu ganhei dinheiro. Canibais & solidão eu também vendi, mas não deu o mínimo do que esse deu.

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Entrei em pânico ao saber o que vocês fizeram na sexta-feira 13 do verão passado. In: PORTAL do Cinema Gaúcho. Porto Alegre: Cinemateca Paulo Amorim, 2024. Disponível em: https://cinematecapauloamorim.com.br//portaldocinemagaucho/261/entrei-em-panico-ao-saber-o-que-voces-fizeram-na-sexta-feira-13-do-verao-passado. Acesso em: 19 de julho de 2024.