Berlim Brasil (2009)

Brasil (RS)
Longa-metragem | Não ficção
cor, 70 min

Direção: Martina Dreyer, Renata Heinz.
Companhia produtora: Cumbuca Filmes

Primeira exibição: Porto Alegre (RS), Sala P. F. Gastal, 11 set 2009, sex, 19h

 

Sócias na Cumbuca Filmes entre 2009 e 2010, Martina Dreyer e Renata Heinz desenvolvem parcerias cinematográficas em curta-metragem antes da realização de Berlim Brasil, como em Saco! (2007), Esquisita sofrenia (2008) e Sangue e goma (2010). Juntas, abordam suas origens étnicas neste documentário sobre as ligações culturais entre o Brasil e a Alemanha. Das décadas de 1860 a 1870, na segunda etapa da colonização alemã no Rio Grande do Sul, imigrantes se instalam ao longo dos vales dos rios Caí, Taquari, Pardo, Sinos e Jacuí. As comunidades erguidas em Teutônia e Westfália conservam muitos dos costumes de seus antepassados, especialmente a arquitetura enxaimel, a língua alemã e suas derivações, como o dialeto “sapato de pau”, decorrente do hunsrückisch, uma especialidade falada em Hunsrück, no sudoeste do país europeu. A tradição deste uso oral do “sapato de pau” pelos moradores do Vale do Taquari é o tema principal de Berlim Brasil

O termo “sapato de pau” (ou “Plattdüütsk”) faz referência aos tamancos de madeira que compõem a vestimenta tradicional nestas comunidades. Por meio de depoimentos de moradores, as cineastas resgatam os trajetos históricos, os fenômenos antropológicos, a memória cultural e os percursos das línguas germânicas em território brasileiro – um processo semelhante ao registro feito por Walachai (Rejane Zilles, 2009). 

O documentário de Dreyer e Heinz demonstra como o alemão e “sapato de pau” se estabeleceram junto com as primeiras famílias de imigrantes em solo gaúcho até esses idiomas sofrerem a repressão do Governo Constitucional de Getúlio Vargas (1934-1937) e, sobretudo, do Estado Novo (1937-1945), período que coincide com a Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Berlim Brasil destaca a proibição oficial da língua alemã e do “sapato de pau” neste período histórico e também a inserção do português, até então desconhecido pelos imigrantes, por meio da educação escolar. 

Além disso, o longa contrapõe o menor interesse de parte das novas gerações pelos idiomas germânicos ao esforço dos adultos para manter esta tradição repassada oralmente de pais para filhos desde o enraizamento das etnias teutônicas no estado gaúcho. Berlim Brasil e Walachai se tornaram objeto de pesquisa da dissertação de mestrado de Alisson Machado, defendida em 2014 no Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal de Santa Maria. Em 2012, Heinz dirige Horror.doc, uma retrospectiva sobre a produção de filmes de horror no Brasil com depoimentos de cineastas, produtores, entusiastas e pesquisadores do gênero. Dreyer faz a assistência de direção. Graduadas em Publicidade e Propaganda na PUCRS, Dreyer cursou realização audiovisual na Unisinos e Heinz é especialista em cinema pela mesma universidade, onde atua como docente no Curso de Realização Audiovisual.

Sinopse


A partir de depoimentos de moradores de Linha Berlim, Paisandu e Languiru, na região de Teutônia e Westfália, no Vale do Taquari, o documentário faz um diagnóstico sobre o estabelecimento e os usos da língua alemã e do dialeto "sapato de pau" em território gaúcho. Habitantes idosos explicam as raízes do idioma germânico e de sua peculiar derivação (também conhecida como "Plattdüütsk", em referência aos tamancos de madeira utilizados por homens e mulheres). O historiador Guido Lang e a professora Rosane Werkhausen Luersen descrevem os processos histórico-sociais que levam à mistura destas línguas com o português, inserido a partir da década de 1930. O "sapato de pau", ensinado oralmente entre as famílias desde a chegada dos colonos na segunda metade do século XIX, é reprimido com o avanço do nazi-fascismo na Europa e do nacionalismo de Getúlio Vargas no Brasil. Tanto o "Plattdüütsk" quanto os escritos em alemão gramatical são proibidos. Entre as décadas de 1930 e 1940, o material impresso é queimado ou enterrado. A própria fala em língua estrangeira é proibida. O silêncio impera nas ruas, bailes e escolas, pois o português é desconhecido pela maior parte das comunidades. Burlar a proibição resulta em prisão para adultos e em punições escolares para crianças. Ao fim deste período autoritário, o "sapato de pau" volta a ser utilizado. Mas, para ampliar a presença do português na região, brasileiros são contratados como serviçais por imigrantes. Orlando Generoso e Alácia Xavier, descendentes de cidadãos negros, dizem que seus antepassados aprendem a falar "sapato de pau" com mais facilidade do que os imigrantes conseguem assimilar o português. Arnoldo Brune comenta que a facilidade de brasileiros negros com o "sapato de pau" garante sua inserção comunitária. Luersen explica que o aprendizado dos brasileiros ocorre por necessidade de comunicação. Entretanto, o casamento entre pessoas de etnias diferentes é desaprovado. O mesmo vale para uniões entre alemães e italianos, ou entre evangélicos e católicos. O médico Carlos Renato Dreyer diz que a fala popular que mistura alemão, "sapato de pau" e português chama-se "alemão salada". Lang conclui que, apesar do alemão e do "Plattdüütsk" serem de uso corrente entre habitantes de Teutônia, Westfália e arredores, os locais se consideram brasileiros.

Ficha técnica


IDENTIDADES
Ordem de identificação:
Família Brune.
Guido Lang (historiador), Arnoldo Brune (marceneiro), Rosane Werkhausen Luersen (professora e doutoranda), Carlos Renato Dreyer (médico), Lucia Dahmer, Elisabetha Maria Scheibel, Orlando Generoso, Marco Mallmann (jornalista), Waltraude Wartschow, Enio Fuchs (pastor), Adelaide Luersen Wiebusch, Perla Heinz e Nathan Heinz, Cheila Daiane Kalkmann, Renate Brackmann, Cirlei Siglinde Koefender, Ana Laura Koefender Führ, Alácia Xavier, Liane Maria Dreyer, Igor Weimer, Angelita Lohmann (professora).
Não identificados: Erna Brune, Ivo Sulzbach, Maria Osvaldina S. Generoso, Rogério Henrique Brune, Silvio Irineu Heemann.

DIREÇÃO
Direção: Martina Dreyer, Renata Heinz.
Assistência de direção: Rafaela Cassol.

ROTEIRO
Roteiro: Renata Heinz.
Tradução: Andréia Scholz, Carlos Renato Dreyer, Liane M. Dreyer, Elisabetha M. Scheibel.

PRODUÇÃO
Produção executiva: Martina Dreyer, Renata Heinz.
Produção: Carmela Rocha, Carol Zimmer, Leonardo Mereu, Rafaela Cassol, Renato Dreyer, Reniane M. Heinz.

FOTOGRAFIA
Operação de câmera: Martina Dreyer, Leonardo Mereu, Renata Heinz.

MÚSICA
Trilha original: Luciano Leães.

FINALIZAÇÃO
Montagem: Martina Dreyer.
Finalização: Martina Dreyer, Rodrigo Jonker.
Edição de som: Luciano Leães, Martina Dreyer, Paulo Arcari.

EQUIPAMENTOS E SERVIÇOS

MECANISMOS DE FINANCIAMENTO
Companhia produtora: Cumbuca Filmes (Porto Alegre).
Apoio: Prefeitura Municipal de Westfália; Prefeitura de Santa Cruz do Sul; Prefeitura Municipal de Teutônia; Prefeitura de Poço das Antas;
Boteco Matita Perê; Cachaçaria Weber Haus; Grão – Arquitetura + Arte + Comunicação; Metrópole Comunicação; Studio Rock.

AGRADECIMENTOS
Agradecimentos: Coral Martin Luther, Comunidade Evangélica de Languiru, Escola Maternal Mônica (diretora, professores e funcionários), Lúcia, Renato, Loni, Liane Dreyer, Liane Dahmer, Reniane, Juliano, Perla, Pastor Fuchs, Luciana Bruni, Carina Rutz e Bruna (secretaria de Educação de Teutônia), João Pedro Fleck, Marcus Mello e o pessoal da Coordenação de Cinema, Vídeo e Fotografia da Usina do Gasômetro.

FILMAGENS
Brasil / RS, nas localidades de Berlim; Linha Schmidt; Linha Frank; Paisandu; Teutônia; Linha Clara; Languiru; nos municípios da Westfália e de Teutônia.
Período: 10 dias de gravações.

ASPECTOS TÉCNICOS
Duração: 70 min
Som:
Imagem: cor
Proporção de tela:
Formato de captação: digital
Formato de exibição: digital
Idioma: Português, Hunsrückisch.

DIVULGAÇÃO
Assessoria de imprensa: Marco Mallmann, Sarah Goulart.

DISTRIBUIÇÃO
Classificação indicativa: Livre.
Contato:

OBSERVAÇÕES
Cf. créditos finais: // Realização: Cumbuca Filmes. / Fevereiro, 2009. / Westfália – RS. //

Grafias alternativas: Rosane W. Luersen (identificação) e Rosane Werkhausen Luersen (créditos finais) | Renato Dreyer (identificação) e Carlos Renato Dreyer (créditos finais) | Elisabetha M. Scheibel (identificação) e Elisabetha Maria Scheibel (créditos finais) | Pastor Fuchs (identificação) e Enio Fuchs (créditos finais) | Adelaide Wiebusch (identificação) e Adelaide Luersen Wiebusch (créditos finais) | Cheila Kalkmann (identificação) e Cheila D. Kalkmann (créditos finais) | Renate Brackman (identificação) e Renate Brackmann (créditos finais) | Cirlei Koefender (identificação) e Cirlei Siglinde Koefender (créditos finais) | Ana Laura K. Führ (identificação) e Ana Laura Koefender Führ (créditos finais) | Liane Dreyer (identificação) e Liane Maria Dreyer (créditos finais)

BIBLIOGRAFIA
MACHADO, Alisson. Os Brasis alemães nos documentários de sotaque do Rio Grande do Sul: figurações das identidades sob os signos das diferenças em Walachai e Berlim Brasil. Santa Maria: UFSM Universidade Federal de Santa Maria-Programa de Pós-graduação em Comunicação, 2014. 196f. Orientação: Cássio dos Santos Tomaim. [dissertação de mestrado]

Noticiário:
KUHN, Fábio. Sapato de pau vira livro. A Hora, Lajeado, 7 set 2019.
SCHMITT, Gabriel. O desafio de registrar uma língua minoritária no caso do documentário Viver no Brasil falando Hunsrückisch. Tesouro Linguístico, 22 maio 2020.

Exibições


• Porto Alegre (RS), Sala P. F. Gastal, 11 set 2009, sex, 19h

• Caxias do Sul (RS), 6º Festival de Verão do RS de Cinema Internacional [11-18 mar], Sala de Cinema Ulysses Geremia, no Centro Municipal de Cultura Dr. Henrique Ordovás Filho (R. Luiz Antunes, 312, bairro Panazzolo), 12 mar 2010, sex, 20h

• Porto Alegre (RS), 6º Festival de Verão do RS de Cinema Internacional [11-18 mar], CineBancários, 14 mar 2010, dom, 19h + 17 mar, qua, 15h

• Santa Cruz do Sul (RS), UNISC Anfiteatro do Direito, 13 maio 2010, qui, 19h30 (debate com as diretoras Martina e Renata, o professor do Curso de Comunicação Social da Unisc e Coordenador da Unisc TV, Jair Giacomini, e o professor do Departamento de Ciências Humanas, Marcos de Moura Baptista)

• Porto Alegre (RS), StudioClio, 29 mar 2011, ter, 19h30 (lançamento do DVD)

• YouTube, disponível desde 13 jun 2015

Como citar o Portal


Para citar o Portal do Cinema Gaúcho como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:
Berlim Brasil. In: PORTAL do Cinema Gaúcho. Porto Alegre: Cinemateca Paulo Amorim, 2024. Disponível em: https://cinematecapauloamorim.com.br//portaldocinemagaucho/616/berlim-brasil. Acesso em: 24 de abril de 2024.